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lunes, 23 de enero de 2017

UNA ANALOGIA

Vou postar aqui a primeira cena de uma peça minha que eu gosto muito, tenho a intenção de postar cenas aleatórias de peças da minha autoria caso alguém tenha interesse em montá-las. Começo com essa, UNA ANALOGIA, está em espanhol, pois é a minha língua natural, mas posso e quero traduzir algumas dessas peças.

SINOPSE

Diana e Vicente são dois irmãos que moram  juntos, eles são polos opostos, ela é sedentária, machista, homofóbica, ladrona, e tem uma vontade enorme de matar o seu irmão, mas socialmente ela é a boa. Vicente é um professor de escola muito talentoso, bom filho e ótimo irmão, mas socialmente ele é o mau. Vicente é acossado por uma criança da escola, Diana se da conta e contrata uns homens para que deem uma porrada nele como castigo, culpando-o de tudo, ele então fica deficiente e perde o seu emprego quando Diana conta do caso para as diretivas da escola. Vicente agora faz um show de stand up comedy, mas não tem cadeira de rodas, nem apoio moral de ninguém, nem amigos, o único que tem é a miserável companhia da sua irmã.



Una analogía



1.
DIANA – frente al cuerpo tendido de su hermano
Siempre quise matar a mi hermano, siempre
El Arroz con Leche es hecho básicamente de arroz y de leche, y es muy fácil de preparar. O sea, cualquiera hace un arroz con leche. Cualquiera.
Ponga una olla grande en el fogón y la llena con agua, unas ocho tazas, depende de cuantos vayan a comer, a mí me gusta hacer bastante. De ahí le echa una libra de panela y un paquetico de pasas. Después le pone el arroz y lo deja cocinar en medio hasta que hierba, mejor dicho hasta que ya vea que reventó. Cuando esté listo le echa dos litros de leche y lo que le quiera añadir: yo le doy mi toque especial con canela y leche condensada, ah y una pisquita de sal, y ahí lo pongo en bajo y lo revuelvo hasta que quede bien espeso. O como le guste. A mí me gusta espeso, y la espesura se la da la panela.

Él siempre dijo que la receta internacional es con azúcar
Internacional, quién dijo que el arroz con leche es internacional. Me da una rabia. Es que me dan es ganas de matar y comer del muerto, como dice mi mamá.
No es que yo sea caníbal, es una manera de hablar, una... ¿Cómo es que se le dice a eso? Una... Aquella cosa, la que dice lo que uno quiere decir y no dice, una... ¿Cómo es que es?

VICENTE
Un ejemplo

DIANA
Una analogía. Yo puedo ser una mentirosa, una cobarde, una hipócrita, una falsa, una ladrona, una rencorosa con un grande potencial asesino, pero nunca una caníbal. No señor, que no hablen mal de mí que yo nunca hablo mal de nadie, yo soy una mujer devota.

Una analogía. Por qué me dará tanta brega acordarme de esa palabra.

VICENTE
Leche es a vaca

DIANA
Por desmemoriada

VICENTE
Lana es a oveja

DIANA
Por despistada

VICENTE
Volar es al cielo, como caer al suelo

DIANA
¿Será la marihuana?

VICENTE
Calor es al fuego como el frío al hielo

DIANA
Me dieron ganas de fumar

VICENTE
¿A qué le tenés miedo?
Diana.
Diana.
Diana.

DIANA
¡Qué!

VICENTE
¿A qué le tenés miedo?
Diana.
Diana.
Diana.

DIANA
Estuve buscando en Internet. Mirá:
Una taza de arroz lavado y remojado
Dos bolsas de leche
Un litro y medio de agua
Dos astillas de canela
Una libra de panela

VICENTE
O de azúcar

DIANA
Una lecherita
Un paquete de uvas pasas, de los pequeñitos, que a mí tampoco es que me gusten tanto las pasas, o sea me gustan pero no tanto como para echarle el paquete grande. El problema es encontrar el pequeñito. Como aquí ya no hay tiendas, como nos dio por vivir en este apartamento. Uno acostumbrado a vivir en casas y venir a vivir en esta analogía

VICENTE
No vas a empezar a decir analogía cada que querás hacer una analogía

DIANA
Fastidioso

VICENTE
La receta internacional es con azúcar
DIANA
Pero no queda igual

VICENTE
¿Y cómo sabés si nunca lo hacés con azúcar?

DIANA
¿Lo querés hacer vos?

VICENTE
Media taza de arroz lavado y remojado Dos bolsas y media de leche Un litro de agua Dos astillas de canela Una libra de azúcar Una lecherita Un paquete de uvas pasas

DIANA
De los pequeñitos Cómo nos dio por vivir en este apartamento Uno acostumbrado a vivir en casas y venir a vivir en esta analogía

Podría haber dicho – “y venir a vivir en esta caja de fósforos”
Yo no sé hacer analogías. Y mañana se me va a olvidar que se llaman así, siempre se me olvida

VICENTE
Y “Venir a vivir en esta caja de fósforos” no es una analogía

DIANA
¿No?

VICENTE
Es una metáfora

DIANA
No te soporto

VICENTE
Como el fuego al viento

DIANA
¿Qué?

VICENTE

Es una metáfora.  

martes, 12 de mayo de 2015

ALGUNS CONCEITOS DA IMPROVISAÇÃO, EM TRÊS

José Sanchis Sinisterra, um grande dramaturgo espanhol que conseguiu sistematizar protocolos dramatúrgicos para escrita e criação de cenas teatrais, meu mestre de dramaturgia alguns anos atrás, falava que o teatro é matemático, assim como a música. No início eu fiquei curioso com essa afirmação, como uma poética artística pode ser matemática? Me perguntava, então comecei a levar a sério esses sistemas dramatúrgicos que Sinisterra propunha para a escrita, leve-os diretamente no corpo do ator-improvisador, chamei às condições da cena improvisada de protocolos, tal e como ele chamava as estruturas da escrita, copiei algumas das fórmulas que aprendi nas aulas com ele e fiz elas no palco, improvisando, então descobri que o mestre estava certo, o teatro é matemático.

PELAS RAMAS - HISTÓRIAS DA FRACTÂVIA
Mas não basta ter fórmulas na arte, essas estruturas, somadas umas com outras, ou divididas ou multiplicadas, nada seriam sem o impulso do desejo, sem um ator em acontecimento acreditando no que faz, em como o faz. A matemática é somente o mapa do caminho, o interessante é percorre-lo, chegar até algum lugar mesmo sem um destino final, aliás, é melhor não ter um destino final e sim um aqui e um agora, pois nossos personagens assim como a gente, vivem um presente misterioso, orgânico, assustador, fruto do nosso passado, ninguém é agora sem ter sido antes e sem querer ser depois, mas é justamente isso o que nos faz seres vivos. O homem é o único ser vivo que sabe que vai morrer, é por isso que vamos ao teatro, como diz o mestre argentino, o crítico Jorge Dubatti, ninguém vai ao teatro para ver o ator nem o personagem, vamos ao teatro para ver os estados em que eles entram, tanto ator quanto personagem. Por isso a importância do convívio teatral, da relação entre palco e plateia, eles não estão divididos, fazem parte da mesma fórmula matemática; segundo Dubatti não poderia existir teatro sem espectador, a própria palavra teatro, que vem do grego Théatron, significa literalmente o lugar de onde se mira. O espectador assiste à peça para ver acontecer algo que ainda desconhece mantendo a distância oncológica, o seja, tendo consciência de que isso que está prestes a ver é teatro e não realidade, porque no palco as coisas não acontecem como na vida real.

Porém essa afirmação também não é uma verdade absoluta, o debate está em aberto, um outro mestre chamado José Sánchez, defensor da dramaturgia pos-dramática, me disse um dia quando eu defendia a teoria de Dubatti -  pense num músico solzinho em casa tocando seu violão, ele está fazendo música? – Eu respondi que sim, lógico que está fazendo música, e ele disse – então porque o ator que está em acontecimento, interpretando, porém, sem um espectador assistindo-o, não está fazendo teatro? – Literalmente fiquei sem palavras, até agora penso nisso como uma variável certa da matemática teatral.

Não tem como ter verdades absolutas na arte, porque ela é subjetiva, é uma poética da interpretação humana, não dá para uma regra negar outra, o teatro é assim, rizomático, feito de fórmulas matemáticas que não se amanham, e a improvisação que eu considero a alma do teatro, não está longe de isso, ao contrário, essas fórmulas, dúvidas e variáveis também pertencem a ela, e nos, improvisadores, temos o dever de conhecer essa matemática mesmo que seja para nega-la logo, para tomar as nossas próprias decisões e criar nossas peças e espetáculos a partir desses algoritmos que nascem do trabalho e não da cópia do trabalho de outros.

Seguindo essa lógica matemática de Sanchís Sinisterra, pensando o teatro de improvisação como um sistema dramatúrgico em convívio, com ou sem plateia, comecei a descobrir que muitas das ferramentas que trabalhamos nos treinamentos, aulas e ensaios podem se juntar em pacotes de três conceitos que agrupados nos ajudam a entender melhor a construção da história improvisada. Vale a pena aclarar que estes conceitos estão ligados com as estruturas episódicas do teatro de improvisação, de histórias com princípio, meio e fim, independentemente do formato ou poética, embora se aproximem e sejam mais úteis nos chamados long form ou formatos longos, já que pela sua duração eles permitem explorar a profundidade a construção cénica dos personagens e das estruturas dramatúrgicas que esses personagens criam na hora.


TRÊS ESPAÇOS

1.       Teatral
É o lugar onde estamos nos apresentando, chame-se teatro, sala de aula, rua, casa, etc. ele é importante porque é o espaço que compartilhamos com a plateia. O improvisador sabe que sua relação com o público é vital para determinar o rumo da história, que o lugar onde se apresenta determina o como se apresenta. A escolha da disposição do público, que luz ou música tem ao ingresso e saída do teatro? Tem luz ou música? Tem ingresso? Tem saída? Tem público? Isso tudo permeia a peça, por isso é importante vivenciar o espaço teatral antes, durante e depois do acontecimento.

É muito comum que a relação do espaço teatral com o espaço cênico seja conectada por uma ponte: apresentador, mestre de cerimônia, narrador, folhas e canetas, um personagem, etc. que vincula à plateia com a realidade da cena, muitas vezes até criando o espaço cênico a partir das sugestões que vem do espaço teatral.

2.       Cênico
Trata-se do lugar onde acontece a cena, geralmente está no palco onde se cria a convenção do lugar da improvisação. Um formato curto ou de jogos sempre tem vários espaços cênicos, inclusive vários numa mesma improvisação, e muitas vezes, como disse antes, é a própria plateia quem sugere esse espaço: cozinha, elevador, praia, sauna, bosque, carro, etc. ele pode ser também um espaço não naturalista: a cabeça de um careca, o coração, uma lata de atum, uma nave alienígena, etc. Os formatos longos também moram no espaço cênico, frequentemente esse espaço já está determinado pelo cenário, seja este verdadeiro ou imaginário.

O improvisador acostuma entrar no espaço cênico de uma maneira literal e ilustrativa, por isso é importante treinar para domina-lo, já que ele determina a plataforma da cena, é aí que acontecem os fatos.  O ator está obrigado a acreditar nele, a viver o aqui e o agora nesse lugar, porque é ali que seu personagem nasce e morre frente aos olhos da plateia, que no final tem só duas opções: entender o espaço cênico, que é o que acontece normalmente; ou vivencia-lo, que é o que deveria acontecer, que o público acredite nesse espaço cênico tanto quanto o ator.

3.       Dramático
Quando falamos de drama parece que estamos falando de telenovela, e mesmo que essa linguagem televisiva se sirva dele como ferramenta, o conceito de drama está distante dessa outra ficção que nada tem a ver com o teatro de improvisação.

Drama significa ação, e ação refere ao ¨como¨ dentro da cena. O que acontece, por que acontece, para que acontece, são perguntas que alimentam o espaço do drama. Chamamos então espaço dramático a esse lugar interior dos personagens, ao acontecimento como tal, à ação que movimenta os objetivos dentro da história.

Vou dar um exemplo para entender melhor este espaço a partir dos outros dois: vamos supor que o espaço teatral é o Teatro Nacional, ali a companhia apresenta uma peça de teatro de improvisação onde o espaço cênico é o quarto de um hotel, nesse quarto um homem e uma mulher chegam a passar a lua de mel, mas durante a história improvisada vemos que a mulher tinha outras intenções e acaba matando o homem. Então o espaço dramático foi o espaço da mentira, da estratégia e da morte. O espaço dramático tem a ver com a situação dramática, a credibilidade que o ator-improvisador tem em relação ao outro e à ação que determina a estrutura improvisada.

Eu particularmente sinto este espaço como o mais afastado da linguagem da improvisação que conhecemos na atualidade. A Impro por exemplo preocupa-se mais pelo espaço teatral que pelo espaço dramático, parece que manter à plateia rindo é mais importante que manter ao personagem vivenciando uma situação que pode gerar riso como consequência e não como objetivo. Da mesma maneira acontece com o espaço cênico, é muito comum ver ao improvisador justificando o lugar que lhe foi dado para improvisar, incluso com uma enorme habilidade corporal e de mimica no caso dos espaços imaginários, mas é difícil encontrar improvisadores que acreditam nele, como o faz o ator que cria um personagem numa peça de teatro de texto, e sei por experiência própria que é muito difícil, mas se fosse fácil não teria graça.

Não se trata de um julgamento e sim de um convite para que comecemos a nos perguntar pela ação como principal ferramenta da nossa linguagem, pois a improvisação à que fazemos referência ainda pertence à representação teatral, não é uma poética pos-dramática, ela não destruiu a noção de drama, e mesmo nos poucos casos de transgressão dramática dentro da improvisação teatral moderna, a ação como principal suporte da cena sempre será o mais importante do nosso trabalho. Lembremos que são os impulsos e os estados o que finalmente o espectador recebe ao sair do teatro, seu espectro da lembrança mora na emoção e não na piada, mesmo nos formatos curtos devemos acreditar no que estamos fazendo e conseguir entrar com corpo e alma no espaço dramático da improvisação.


TRÊS CONFLITOS

1.       Comigo mesmo
Os personagens se definem pelas decisões que tomam, e sabemos bem que tomar uma decisão sempre gera um tipo de conflito. Ninguém está completamente feliz consigo mesmo, dia traz dia acordamos com vontade de mudar alguma coisa das nossas vidas, do mesmo jeito acontece com nossos personagens, eles não são unilaterais, têm várias faces, problemas e obscuridades ocultas.

Sabemos que nenhum personagem deveria acabar igual a como começa, porém isso é muito complicado na improvisação já que pela falta de texto não sabemos a ciência certa como é esse trajeto nem que vamos ter que vivenciar para percorre-lo com credibilidade.

Os personagens devem seguir seu próprio racionamento, a línea sincera dos seus pensamentos. Nos acostumamos à regra de não falar ¨não¨ para manter a cena sem bloqueios, mas acontece que muitas vezes esse ¨não¨ vem do personagem e não do ator. As decisões que meu personagem toma devem estar atravessadas pela minha decisão como ator, diretor e dramaturgo, mas no final das contas o importante é que seja meu personagem quem diga a última palavra.

Aconselho sempre aos meus estudantes que seus personagens, por pequenos que sejam, sempre estejam em conflito consigo mesmo. Não obstante este tipo de conflito também pode ser o foco dramatúrgico de uma cena improvisada. Se analisamos por exemplo Hamlet (de William Shakespeare) podemos ver com claridade como a peça está atravessada por um conflito de ele com ele, a dúvida e a decisão sempre estão presentes na peça, ao ponto de ser reconhecido justamente pelo monólogo que delata esse conflito individual: - Ser ou não ser, eis a questão – Pensemos então que uma improvisação pode tranquilamente estar centrada na individualidade de um personagem, e não por isso deixar de ser todo um mundo com paisagens, tramas e histórias paralelas.

2.       Com outro
Este é o tipo de conflito que fazemos de forma natural. Um improvisador iniciante sempre recorre à discussão como principal opção para propor ou contrapropor uma cena. É natural ver casais brigando, competições esportivas ou brigas entre o patrão e o empregado; esses lugares comuns vêm do que vemos dia a dia, a gente recebe informações de guerras e enfrentamentos o tempo todo desde que somos crianças, é por isso que ao improvisar este tipo de conflito é o vem primeiro nas nossas cabeças, daí a importância de nos preparar para aprender a administrar as informações e lembranças que temos na mente.

Uma das melhores maneiras de crescer como improvisadores-dramaturgos é tirando durante um bom tempo este conflito de eu com outro, especialmente ao início da nossa formação. Pelo fato de ser uma cena improvisada a briga deixa ela desconfortável e sem muitas saídas, nalguma hora alguém tem que ceder. Quando numa aula eu faço um stop numa improvisação onde aparece uma discussão e falo para algum dos improvisadores não seguir esse jogo, a história imediatamente cobra força, escapa do naturalismo banal e começa um novo caminho certamente mais interessante.

Embora este conflito também é importante, se for o personagem quem entra nele, interpretado por um ator-improvisador preparado e consciente, o caso é diferente. O improvisador profissional pode nos expor um conflito que tem com outro como uma escolha certa dentro do espaço dramático e não como uma opção comum do ator que ainda não sabe administrar essa informação.


3.       Com o entorno
As melhores cenas improvisadas quase sempre estão atravessadas por este conflito. O mundo está em contra nossa: ficamos trancados nalgum lugar, alguém que não vemos vem nos pegar, perdemos as passagens e a viagem é hoje, apaguei sem querer o relatório que tinha que entregar, meu cachorro sumiu, etc. São muitas as opções que podemos encontrar quando estamos juntos numa situação onde as coisas nos desfavorecem.

Este conflito nos convida a encontrar saídas que muitas vezes nos levam a lugares ainda mais conflitantes, é como um labirinto de acontecimentos onde todos temos o mesmo objetivo.
Pensemos por exemplo uma cena clássica de um casal que vai para uma festa, temos duas opções: o lugar comum, vê-los brigando porque ela não gosta do jeito dele se vestir, ou ele bravo porque odeia que ela demore tanto para se arrumar, uma situação clássica, todos já vimos ou temos referência disso por algum motivo, sabemos que nalguma hora alguém vai ter que ceder ou sobreaceitar, chegará um momento em que o desejo vai nos consumir, queremos que algum dos dois reaja, tome uma decisão e saia daí, ou então que os diálogos sejam profundos e cheios de descrições e evocações que nos levem a um universo paralelo a través da narrativa, mesmo assim o perigo da discussão apagar essa narrativa é alto. Também podemos optar pelo conflito que nos concerne agora, o entorno contra o casal: em lugar de brigar eles se apoiam, estão felizes pela festa, atrasados; até podem comentar o muito que ela demora se arrumando ou o mal que ele se veste, mas não é o foco da nossa cena, em lugar disso quando o casal vai sair de casa a porta não abre, as janelas também não, parece que alguém trancou eles, mas não sabem quem nem por que. Os improvisadores agora estão jogando no espaço dramático da incerteza e a urgência, sem controle do que possa acontecer, no risco, brincando com uma promessa que ninguém sabe como cumprir, mas que com certeza vamos cumprir juntos, passo a passo, no abismo da improvisação que é onde melhor se cria.

O conflito do entorno é o melhor jeito de se preparar dramaturgicamente para improvisar histórias, nas minhas aulas sempre falo disso, os estudantes compreendem a praticidade que ele lhes dá fazendo-o.


TRÊS ACONTECIMENTOS

1.       Fator imprevisível ou acontecimento surpresa
Uma cena muda radicalmente com um acontecimento, podemos ter uma ação contundente dentro da situação dramática, mas se ela não transforma nada nem ninguém então não deixa de ser uma ação. O acontecimento surge a partir dessa mudança, e um dos mais claros nesse aspecto é o fator imprevisível, o acontecimento que ninguém espera: num trem onde vemos um grupo de amigos viajando felizes, falando banalidades, esperando ansiosos chegar no seu destino, de repente se escuta uma explosão, trata-se de um vagão que foi detonado por terroristas, o ambiente muda radicalmente, o que antes era felicidade agora é medo e confusão, alguém tem que tomar uma decisão, porque depois do acontecimento vem a decisão, ela que nos diz o rumo da situação, é diferente se esses amigos são os terroristas ou se são as vítimas, dessa escolha depende o trajeto da improvisação.

O fator imprevisível deve surpreender alguém, seja ator-improvisador, personagem ou plateia, ou todos ao mesmo tempo, ele pode vir de um estímulo externo: som, luz, voz, etc. ou de um impulso interno: algo que se encontra, algo que se perde, uma transgressão ou mudança do corpo do personagem, a aparição de um objeto não esperado, etc.

2.       Ato de fala ou acontecimento falado
O texto também é ação, uma frase pode mudar profundamente uma cena, todo depende do que acontece depois, da decisão do personagem frente a essa alocução. Socialmente um ato de fala é aquele que significa algo dentro de um contexto antropológico comum, por exemplo: quer se casar comigo?; você está com câncer; estou grávida; você ganhou a loteria; eu te amo; etc. Estas frases na vida real sempre trazem uma troca de estados, uma mudança de vida, um decline da situação. Do mesmo jeito passa na cena improvisada, com a diferencia de que nela um o ato de fala pode levar a situação para um lugar que não esperamos, ou pode ser construído a partir de uma frase simples que socialmente, na nossa vida cotidiana, não tem o peso que a cena propõe. Por exemplo: acabaram as laranjas; eu te espero; eu gosto de pão; minha mãe se chama Marta; etc. Qualquer frase que seguida de uma mudança causada por ela vira um acontecimento falado.

Geralmente depois de um ato de fala vem um silêncio, ele que dá o peso à situação, dependendo do que se diz o silêncio pode gerar humor ou ser constrangedor, em qualquer caso a línea dramatúrgica da história vai virar da mesma maneira que o faria se fosse um fator imprevisível, aliás o acontecimento falado também é imprevisível a maioria das vezes, porém ele está sustentado no texto e pretende se converter numa notícia, informação, resposta, pergunta ou comentário o suficientemente relevante para transformar a história.

Pensemos nos amigos que estão no trem, a mesma situação de antes. De repente alguém entra no vagão que eles estão e grita: - Há uma bomba neste trem – A situação é parecida, de fato poderá inclusive gerar a mesma situação depois, a diferencia é que neste caso o acontecimento foi falado, não teve um vagão explodindo ainda, tal vez nem exploda, mas o fato da informação já faz a situação declinar o suficiente levando os personagens a tomar uma decisão e mudar radicalmente a história.

3.       Promessa ou acontecimento planejado
Mesma situação, mesmo trem. Um dos amigos se levanta e vai ao banheiro, vemos ele entrando misteriosamente e trancando a porta, é nosso foco, saca uma bomba e ativa-a no vaso sanitário, programa-a para detonar daqui a cinco minutos, sai do banheiro e volta ao seu grupo, em aparência nada muda, mas nosso olhar já não é o mesmo, a tensão aparece como protagonista do espaço dramático. A decisão, que vem sempre depois do acontecimento, neste caso pertence aos atores-improvisadores; o como vão resolver esse jogo através dos subtextos, ações e diálogos, os porquês e os paraquês, convertessem em o principal objetivo dos dramaturgos-improvisadores.

O acontecimento planejado está diretamente relacionado com a plateia como sujeito ativo da ação teatral, as premissas e promessas que construímos na cena improvisada geram um acontecimento na ironia dramática entre personagem e público: um segredo; uma decisão não dita; uma ação não feita, mas pronta para sê-lo; um encontro perigoso prestes a acontecer; uma trama compartilhada conosco como público, etc.

Este tipo de acontecimento chama-se de planejado porque a diferencia do ato de fala e o fator imprevisível, sabemos que ele vai acontecer, mesmo que não aconteça, somente o trajeto entre a promessa e o resultado já revela uma transformação radical da estrutura dramática. Pensemos por exemplo em Esperando Godot (de Samuel Becket) ali os personagens esperam o tempo todo alguém que nunca chega, mas a espera já faz acontecer, é ela um importante foco da dramaturgia. Agora pensemos nas múltiplas opções que temos dentro de uma improvisação para que um acontecimento planejado entre como parte e promessa do personagem, da situação e por consequência da estrutura dramática da história.


TRÊS STATUS

O status é a posição que um sujeito assume frente a uma ação, uma situação, ou um outro sujeito. Em cena o status constitui-se como um ponto vital para o desenvolvimento das improvisações, todos os personagens por pequenos que sejam, tem um status

O mestre Keith Johnstone, a quem atribuímos o nome de Impro à técnica que serve de base na improvisação moderna como resultado e não como processo de criação, expõe no seu livro titulado com o mesmo nome: Impro, Improvisação e Teatro, um capítulo completo sobre o status, nos ensinando muito bem duas maneiras de aborda-lo: social ou situacionalmente. Não obstante quando falamos de Teatro de Improvisação esses dois caminhos precisam de um terceiro que insira ao ator no espaço dramático, que motive o personagem e o convide a gerar conflito consigo mesmo, é assim como vamos falar então também do status emocional.

1.       Status Social
Antecedendo ao status social existe o status antropológico que nos define desde um ponto zero como seres humanos no planeta terra, considerando a geopolítica, a sociedade, a religião, o sexo e as demais condições nas que cada um de nós nascemos. Condições que são irrefutáveis no momento do parto, mas que podem mudar consideravelmente no transcurso da vida. Quando nas minhas aulas começo expor o status como ferramenta do ator-improvisador, muitas vezes faço o seguinte exercício: todo mundo vai para uma línea no fundo da sala, como se fossem começar uma corrida, somente dá um passo à frente quem tiver uma resposta afirmativa nalguma das perguntas que vou formular. Quem é homem? Quem é heterossexual? Quem é branco? Quem nasceu na Europa? Quem é batizado? Quem ao nascer já tinha casa própria? Quem mora num país sem guerra? Quem tem papai e mamai? Quem estudou em escola privada? Quem nasceu numa família com carro? Quem já saiu do seu país? Quem fala inglês? etc. Depois de fazer essas perguntas quem estiver mais à frente tem mais status social, porque antropologicamente falando as condições em que nasceu fórum favoráveis. Não é igual nascer na Colômbia que nascer na França, como também não é igual ser filho de profissionais do que ser filho de trabalhadores sem escolaridade. Essas incidências às quais fazemos parte como seres sociáveis neste planeta, determinam nosso status social.

Também é importante entender que nosso olhar frente a esse status não é vertical, não temos juízos de valor, ninguém tem culpa de nascer numa família rica ou pobre, simplesmente é uma condição social da qual fazemos parte. Nosso olhar é horizontal, reconhecemos a diferencia como objeto de estúdio para a construção dos nossos personagens. Tanto assim que as vezes no mesmo rumo do exercício anterior, peço para o grupo voltar atrás e faço novamente o exercício mudando as perguntas e levando-os para o estado do status emocional do qual falarei mais para frente.

É inevitável pertencer a um determinado status social, ele se define pelo entorno: a profissão, o trabalho, o dinheiro, o poder, as jerarquias, etc. Está ligado às mudanças da vida: ser promovido, ser demitido, se casar, se separar, ter empregados, ser empregado, ganhar, perder, mandar, obedecer, etc. Por isso é importante determinar o status social dos nossos personagens, porque ele serve como plataforma para conhecer o estado em que eles se relacionam com o mundo em sociedade, aspecto importantíssimo para o improvisador que conhece seu personagem passo a passo ao mesmo tempo que o constrói. Começar pela forma é um bom jeito de criar um personagem, e o status social determina claramente essa forma em termos de relação e vínculo com o outro.

Alguns exemplos de jogos de status social que implicam duas pessoas numa mesma situação, porém cada uma num extremo da gangorra: patrão e faxineira; rei e bufão; médico e paciente; mãe e filho; ator e fã; motorista e passageiro; Deus e anjo; etc.

2.       Status situacional
Entrar no palco com um status social claro não indica que o personagem se mantenha sempre no mesmo estado em referência aos outros e à situação. Tudo depende da ação em acontecimento. O status situacional determina a cor da cena, seu movimento leva os personagens de um lugar a outro gerando prazer e interesse na plateia. Nem sempre o empregado tem menos status que o empregador, socialmente sim, mas podem existir muitas situações nas que a inversão de status apareça, por exemplo numa situação onde o empregador precise da ajuda do empregado, ou do seu conselho, ou da sua verdade. Do mesmo jeito acontece com qualquer um.

Ter mais ou menos status social não indica ter mais ou menos status situacional. Um exemplo: três empresários de alto status social estão prestes a serem promovidos, porém eles sabem que somente um deles terá o cargo. A discussão em que eles entram claramente os levará a uma luta de quem tem mais status social e merece sentar no escritório da gerencia, somente o mais capacitado poderá entrar. A briga começará por descrever qual tem mais estúdios, ou domina mais línguas, ou tem facilidade de se transportar, de mandar, de tomar decisões que impliquem demitir pessoal ou até fazer escolhas que somente alguém preparado pode fazer, etc. no final quem mais status social tiver entra, os outros dois ficam. A situação é simples, ela está caminhando na mesma direção, tanto status social como situacional fazem o mesmo trajeto.

Pensemos nesta outra situação, os mesmos três atores agora são três mendigos que estão na rua na frente de uma lanchonete, os três sabem que somente um deles será chamado para comer as sobras de um lanche que alguém deixou cima da mesa, os outros dois terão que ficar sem comer. Com certeza trata-se de uma briga de status situacional que vai na direção oposta ao status social, o seja, será chamado a comer aquele que estiver na pior das condições, merece mais o lanche o mendigo mais necessitado, ao contrário da outra situação, embora a luta continue sendo por alcançar o status social mais alto.

Uma das situações mais divertidas é ver um personagem de status social alto num status situacional baixo, é por isso que resulta engraçado ver aqueles vídeos de modelos de alta costura caindo na passarela; ou ver uma meleca saindo do nariz do presidente da república num ato público. Os personagens cómicos mais icónicos do cinema quase sempre entram nesse jogo de status, por exemplo Charlot (Charles Chaplin) é um vagabundo que se esforça por ter bons modais e a dignidade de um cavaleiro, um status social baixo que quer ser alto, as situações em que ele entra fazem quase sempre dos personagens burgueses: ricos, policiais, patrões, etc. sofrer as consequências das suas travessuras, baixando o status situacional deles batendo nalgum lugar, correndo detrás dele, caindo, etc. Do mesmo modo acontece com Mr. Bean, Cantinflas, Os três Patetas, Chaves, Chapulín Colorado, e muitos outros mais que brincam nesse balancim da gangorra que Jonhstone nos ensinou que sempre deve estar em constante movimento de arriba para baixo. Nenhum personagem fica quieto num único status situacional.

3.       Status emocional
Se existe o espaço dramático, o conflito interior e o esperpento do personagem, também existe um status que valoriza esses estados. A emoção como motor da ação está atravessada por um estado que difere da posição social ou da situação em que nos encontremos. Vamos voltar para o exercício do status antropológico que falamos ao expor o status social. O grupo em línea no fundo da sala, somente dá um passo à frente quem tiver a resposta afirmativa a alguma das perguntas: Quem estuda ou trabalha no que sempre quis? Quem está felizmente apaixonado? Quem anda de transporte público ou bicicleta por convicção e não por obrigação? Quem é homossexual assumido? Quem mora num lugar gostoso? Etc. Quem ficou mais na frente tem um status emocional, aqui e agora, mais alto. E é importante fazer um foco nesse aqui e agora, pois o status emocional está estreitamente ligado ao presente, eu não necessariamente sinto a mesma coisa que senti ontem porque eu não sou o mesmo que era ontem.

A emoção que acompanha as minhas decisões como dramaturgo-improvisador também são importantes, porem o status emocional pertence aos sentimentos do meu personagem. Eu posso estar numa situação de status social onde sou um vendedor numa entrevista de emprego, estou precisando do trabalho, a situação está dada, é clara, mas no fundo eu não quero mais trabalhar como vendedor, eu quero ser cantor. Durante a entrevista a mulher que está me entrevistando se sente atraída por mim, o status situacional dá uma virada, agora eu estou encima, tenho um status social baixo, um status situacional alto e um status emocional incômodo.

Nem sempre a plateia percebe o status emocional, muitas vezes ele pertence ao esperpento, fica como motivador do improvisador e pensamento do personagem. Está relacionado com o desejo, com a necessidade e o prazer. O status emocional depende do que está no interior, vem de dentro e não de fora, porém pode ser revelado nalgum momento gerando inclusive um acontecimento para a cena. Por exemplo, pensemos numa cena onde duas mulheres estão esperando seu filho sair da escola, elas começam a falar deles como qualquer mãe faria, começa uma luta de status social alto, quem tiver o melhor filho está no topo. O tempo passa, era para as crianças ter saído quarenta minutos atrás, ninguém abre a porta da escola ou atende o telefone, a situação muda, agora temos duas mães desesperadas falando da fragilidade dos seus filhos, do perigo que podem estar correndo lá dentro trancados fazendo sei lá o que. O status emocional está sendo atravessado pelo status social, embora tem muito mais foco, é isso o que nos interessa ver agora. Na situação nenhuma das duas mães liga para a polícia, descobrimos que ambas estão sendo procuradas pela lei, nova inversão de status, acabou a luta entre elas, estão juntas, motivadas pelo status emocional, decididas a entrar no lugar seguindo seus instintos de proteção. Derrubam a porta, uma delas até tinha uma arma, aponta, dispara sem parar. Nesse momento chegam os ônibus da escola do passeio que estavam fazendo com os estudantes, ambas mães esqueceram desse passeio, os filhos descem, a polícia chega, eles vêm como suas mães são levadas na viatura, estão felizes de ver as suas mães sendo levadas presas, sua emoção está ligada à sua imaginação, minha mãe na cadeia é massa, pensa uma criança. É uma cena completamente motivada pelo jogo de status emocional.

Não tem como desligar a emoção da situação e da ação, isso quer dizer que o status emocional sempre está relacionado com o status social e situacional.







miércoles, 17 de julio de 2013

NO TEATRO AS COISAS NÃO ACONTECEM COMO NA VIDA REAL

“O ator tem que nascer em cada ensaio para que o Teatro possa pensar” – diz o mestre argentino Jorge Eines[1], e eu concordo com ele, assim como acho que os improvisadores deveríamos começar a pensar mais quando estamos no palco. Quando improvisamos estamos gerando acontecimento em convívio com a plateia, isso é incrível e não pode se perder, aliás é impossível; mas é importante lembrarmos que nós, improvisadores, também estamos fazendo teatro. E a Impro, assim como a improvisação, também é teatro[2] e no teatro as coisas não acontecem como na vida real, mas acontecem. De nada vale a gente se esforçar criando boas histórias, cenas originais e engraçadas, se no fundo não temos a consciência do que estamos gerando. As pessoas não vão ao teatro simplesmente como “um plano de sábado na noite”, elas inconscientemente estão querendo uma transformação, ninguém quer sair do teatro do mesmo jeito que entrou, é uma realidade antropológica, quase ritualística, o ser humano precisa do teatro como válvula de escape, para escutar e ver o que ele quer e não consegue, mas a traves de outra lente, a lente do mundo ficcional e mentiroso, mesmo que a gente não faça as coisas de mentira. O ator improvisador também não pode sair do teatro igual a como entrou, porque ele independentemente das suas ideias, está sendo político só pelo fato de estar fazendo teatro, ele deve acreditar no que está fazendo, se transformar junto com a plateia, não podemos pretender transformar ninguém se nós mesmos não nos transformamos.

                                  
                                                                                "Passageiros" Teatro de Improvisação. Brasil. 2013                       

Existem três tipos de espaços no acontecimento teatral:

O espaço teatral: ele faz referência ao lugar onde se representa a peça improvisada. É o teatro como tal, o local do encontro entre a plateia e o elenco (atoes, diretor, iluminador, técnica, etc.)

O espaço cénico: é o lugar onde acontecem as ações. Quase sempre está definido pelo cenário, seja este físico ou imaginário. É nele que a história se desenvolve. Pode mudar com as diferentes cenas ou quadros que compõem a improvisação.

O espaço dramático: é o lugar interior da ação. Não tem a ver com o local físico e sim com a ação dramática e a interpretação do ator improvisador. Assim por exemplo se o espaço teatral é o Teatro Municipal, e o espaço cénico é uma cozinha, o espaço dramático estará relacionado com o que está acontecendo na cozinha e muito especialmente no como está acontecendo. Alias a cozinha então virará o espaço do perdão, da traição, do planejamento, do medo, da comemoração, etc.

O improvisador normalmente fica no espaço teatral e às vezes consegue entrar bem no espaço cénico. Isto devido a sua relação direta com a plateia, já que quase sempre o ritmo da peça depende da reação do público, o que eu acho ótimo. Mas o convite é para que o improvisador, mesmo mantendo esta relação no convívio, entre cada vez mais no espaço dramático como normalmente faz o ator que tem tempo de estudar seu personagem, seus textos e ensaiar suas intenções. E muito difícil nós improvisadores mantermos a conexão com o público e ao mesmo tempo acreditar no que está acontecendo no espaço dramático, mas não é impossível, e quanto mais mergulharmos ali, a resposta da plateia estará carregada não só de risos, como também de diferentes sensações que mexerão em todos os que fazem parte do encontro. E é justamente isso do que estamos falando, de transformação. 

Nessa busca por sermos verdadeiros e acreditarmos no que estamos fazendo, nós improvisadores cometemos certos erros que valem a pena ser vistos com cuidado. O principal deles é o naturalismo como única saída da história. Não sou eu quem fala que no teatro as coisas não acontecem como na vida real, desde sempre o teatro existe para criar outra realidade, não adianta fazer no palco o que já fazemos na vida, a televisão já faz isso bem melhor do que a gente. Agora, é natural ser naturalistas, nosso corpo e nossa mente no momento de improvisar procuram no lugar conhecido, no espaço comum das lembranças, da nossa educação, das regras sociais que rijem a gente. Mas as melhores improvisações, independentemente do formato de Impro, são aquelas que tiram a gente do lugar de conforto. É por isso que os treinamentos e os ensaios são tão importantes, porque neles a gente pode procurar esses outros lugares, porque é ali que o ator tem que nascer para que o teatro possa pensar. Os ensaios estão feitos para errar, para trabalhar justamente o que nunca trabalhamos na cotidianidade.

Outro erro comum surge justamente neste ponto (mesmo que na Impro não exista o erro[3]pensar o ensaio como espaço cênico e não como espaço de pesquisa. Como a gente trabalha com a improvisação, a sala de treinamento tende a virar o espaço da apresentação sem plateia, o que faz muitos grupos pensarem sempre no resultado e não no processo. Como bem disse o improvisador brasileiro Guilherme Tomé na abertura do espetáculo Improvável: - “A gente não sabe o que vai fazer, mas a gente sabe muito bem o que está fazendo”- e para saber o que estamos fazendo temos que estudar, treinar e ensaiar. Não pretendamos que todo o que fazemos no ensaio seja cénico. Demos um foco ao treino e mergulhemos nele.

Embora nada disso é uma verdade, é só um olhar sobre o teatro de improvisação, inspirado nas ferramentas do ator do teatro de texto, só porque repito, a Impro é teatro e no teatro as coisas não acontecem como na vida real. Por isso, se você é improvisador e quer sair do lugar comum, tente experimentar estes conselhos simples e vai ver como as coisas começarão a mudar nas cenas, sejam de jogos curtos o de formatos longos de Impro.

Procure trabalhar baseando-se em minimizar importância das coisas que normalmente tem muita importância e colocar importância nas coisas que normalmente não tem importância.

Não faça sempre a primeira coisa que venha à sua cabeça, às vezes é melhor o segundo, o terceiro ou quem sabe, a décima ideia que aparecer. Lembre-se que você não só é ator e improvisador no palco, você também é diretor e dramaturgo da cena. Então as suas escolhas no espaço dramático vão inevitavelmente interferir no espaço cênico e teatral.

Fugir do naturalismo não é tentar ser original, Não procure boas historias, vá no fluxo verdadeiro da ação, acredite, confie e se arrisque com as suas propostas e especialmente com as propostas dos outros, pense que elas sempre serão melhor que as suas.

Procure silêncios, tome decisões seguindo o raciocínio do seu personagem e não imponha a sua proposta, jogue-a para que os outros também trabalhem sobre ela.

Não faça escolhas nem tome decisões só pela ideia que tem na sua cabeça, e sim pelo que está acontecendo na ação com os outros, não esqueça que improvisar é como escrever um texto com muitas mãos.

Quando for tomar uma decisão ou fizer uma proposta, não pense ela sob o seu raciocínio, não diga: - “Eu faria isto o aquilo”- pense sim como pensaria seu personagem e não esqueça o que é melhor para a cena aqui e agora.

Faça e depois sinta, não fique somente na sensação como também não fique somente na literalidade. O improvisador trabalha numa linha tênue entre os três espaços e sua função está em nunca ultrapassar nenhum deles como também não ficar só num deles.

Não subestime o público, não explique tudo, mesmo que você também não entenda o que está acontecendo, se deixe afeitar pela situação dramática e não sempre pela história. É melhor uma cena bem interpretada do que simplesmente uma história bem contada.



[1] Tomado do artigo “Poder Pensar” (http://blog.jorge-eines.com/2013/05/11/poder-pensar/) do Jorge Eines. Fundador e diretor de “Ensayo 100 Teatro” e de “Tejido Abierto Teatro” na Espanha. Professor e diretor da escola de interpretação “Jorge Eines”. Também é teórico e catedrático da técnica interpretativa.

[2] Chamamos de Impro à improvisação como resultado cénico e não como processo de criação do ator.

[3] Não tem erro. É uma das reglas básicas da Impro. Mas ela faz referencia às propostas dos personagens em procura de uma aceitação que ajude ao normal desenvolvimento da cena improvisada. 


jueves, 30 de mayo de 2013

OS CAMINHOS DA IMPROVISAÇÃO TEATRAL

O teatro é ação, é acontecimento em convívio, e para o teatro ser teatro precisa da improvisação, inclusive numa peça com texto onde os atores se enfrentam diante de uma plateia que pode assistir a mesma cena umas mil vezes. A improvisação é necessária para que a peça continue viva, sem ela tudo vira uma repetição banal e sem sentido. A improvisação é a alma do teatro, é o que mantem o ator vivo, é o risco constante, o desafio de estar no palco frente a um público apresentando uma mentira, um mundo ficcional e diferente do mundo real, embora tão perto que simplesmente acaba poetizando o que já todos sabemos e sentimos.

Agora, se pensamos que a improvisação é a alma mesma do teatro, imaginemos o que é expor a alma sem o corpo, aliás, apresentar o improviso não como processo, e sim como resultado final. Foi isto o que pensaram há vários séculos os atores italianos da Comedia Del Arte, e há pouco tempo alguns diretores e teóricos como Viola Spolin[1] e Keith Johnstone[2], que revalorizaram a improvisação e a levaram à cena, expondo suas debilidades e virtudes. Este tipo de teatralidade improvisada foi chamado por muitos como Impro[3].

Falar de Impro leva-nos a uma discussão atual: Existe uma clara diferença entre Impro e Improvisação?[4] A Impro é teatro? É jogo? Eu particularmente penso que a Impro, tal e como ela está sendo concebida pela maioria dos improvisadores desta década, está mais relacionada com o jogo do que com o teatro, por isso a considero um jogo teatral. Não obstante, um dos caminhos pelo qual eu particularmente optei foi justamente o encontro entre a Impro e o teatro, ou seja, tomar as ferramentas do ator e entrega-las ao improvisador para que faça cenas sem preparação, mas com a mesma qualidade e poética de aquelas cenas escritas por autores no teatro de texto. Creio também que existe uma diferença entre Improvisação e Impro, e que esta última não se conforma num estado só, já que nem tudo o que se improvisa em uma cena cabe na mesma categoria; é por isso que existem diferentes formatos de Impro no mundo, especialmente os formatos curtos e longos. Nos formatos curtos, os jogos, os desafios e a metáfora do esporte são mais evidentes, as improvisações são rápidas e podem demorar entre dez segundos e dez minutos. Geralmente estes formatos são cômicos, já que o espetáculo se realiza com o objetivo de entreter o público, o que gera certa vulnerabilidade do ator frente a algo que ainda está por se fazer. Os formatos curtos mais conhecidos são: Teatro Esportivo; Match de Improvisação; Catch de Impro; Pedetemas; e Jogos de Impro; estes últimos massificaram a Impro a outro nível, convertendo-a em moda, já que hoje, especialmente em países como Brasil, a maioria de espetáculos de Impro é de formato curto de jogos, exemplo disso é o sucesso do espetáculoImprovável[5], da companhia Barbixas de Humor.

Apesar dos formatos curtos não terem a pretensão de serem considerados como obras de teatro, a finalidade de uma boa improvisação, independentemente do formato, é se aproximar cada vez mais do teatro. A Liga Nacional de Improvisação do Canadá assegura que “a Impro procura fazer sobre a cena o trabalho do autor, do diretor, do cenógrafo e do comediante” (Canadá, 1987, p. 44). Isto nos faz perceber que, de certa forma, a Impro não precisa do teatro para se sustentar, de fato seu grande potencial parece estar justamente na sua autonomia poética; assim, quem assiste a um espetáculo de Impro de formato longo de alguma maneira assiste também a uma peça de teatro com uma estrutura dramática improvisada, e toda estrutura dramática tem por natureza uma dramaturgia implícita.

Os formatos longos de Impro caracterizam-se por criarem improvisações que procurem a possibilidade de estender a ação dramática. Geralmente eles também pesquisam uma conexão mais forte entre o improvisador-ator e o improvisador-dramaturgo, ao contrário dos formatos curtos que buscam o improvisador-jogador. É justamente por este fato que se produzem, nos formatos longos, resultados próximos à linguagem teatral e afastados dos formatos esportivos. Esta investigação da técnica em outros níveis, que se aprofunda no campo da ação e a estrutura dramática, é uma pesquisa particular de cada companhia de Impro, desde à construção de personagens com maior profundidade até à criação de estórias com uma duração superior a dez minutos. É por isso que, independentemente da busca particular de quem assume um formato longo, sua finalidade hipotética e sinistra sempre será criar uma peça de teatro improvisada. Seu principal obstáculo está em dar o passo até o discurso dramático improvisado e em transformar as ações cotidianas próprias da Impro em ações dramáticas próprias do teatro não improvisado. Comumente estes formatos longos são tão particulares em cada companhia que até agora não existem muitas categorias definidas, com a exceção do Harold[6], que parece ser o antecessor de muitas outras investigações, principalmente no continente americano.

E para alimentar ainda mais a discussão e aprofundar a pergunta de “se a Impro é teatro”, poderíamos dizer, a partir de uma visão mais dramatúrgica baseada em alguns conceitos teatrais, que o texto dramático precisa de sentido próprio, de postura de autor. Que este texto necessita falar de alguma coisa que ainda não foi falada, ou que se quer expressar de uma forma particular, como disse Mikhail Bakhtin (2008) “o texto dramático só é possível a partir de uma moldura sólida, inquebrantável e fechada” (17), fundamentos que muitos outros teóricos também afirmam.

Qualquer que seja o caminho ou o formato, o melhor é saber que a Impro é um espaço de construção de sentido. Isto faz com que ela também seja um acontecimento teatral, e nós, improvisadores famintos por novas formas de improvisar, temos tantas opções como ideias, e podemos criar a partir do que temos, mas com o que ainda não foi improvisado, de modo que tenhamos autonomia, risco e objetivos para investigar, por que é assim que se forma um verdadeiro improvisador e não um ator improvisado.

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NOTAS
[1] Viola Spolin é considerada a “mãe norte americana” do teatro de improviso. Ela influenciou a primeira geração de artistas de Impro no mundo moderno graças à sua preparação de atores no Second City. Spolin sistematizou vários jogos teatrais inspirada pelos princípios defendidos por Brecht e Stanislavski. Entre seus livros mais importantes estão: Improvisação para o Teatro; e Jogos Teatrais: o Ficheiro de Viola Spolin.

[2] Keith Johnstone é um professor e diretor inglês que revalorizou e sistematizou a improvisação como uma técnica e um género teatral no século XX. Ele escreveu o livro Impro: Improvisação e O Teatro, que se converteu no guia básico dos improvisadores no século XXI. É o diretor da companhia canadense Loose Moose.

[3] Impro é a denominação dada à improvisação como espetáculo, que consiste em criar uma história, diálogo, cena ou conflito dramático a partir da resposta veloz a estímulos internos ou externos do ator frente a um objeto, ao entorno, a seus companheiros e ao público (De Lima e Muniz, 2007).

[4] Frank Totino (2011), se referindo a resposta de Keith Johnston frente à pergunta de se existe diferença entre a improvisação e a Impro, manifesta: “não existe diferença, já que se você está improvisando na cena, todas as técnicas, os exercícios, os jogos, serão unicamente usados para encontrar as historias” (Entrevista de investigación, 2011). Totino é o discípulo vivo mais próximo de Johnstone. Gestor do Keith Johnstone Workshops Inc. Produtor de Impro Vídeo e membro da Direção Jurídica Internacional Theatresports Institute. A entrevista foi realizada em abril de 2011 em São Paulo, no FIMPRO (Festival Internacional de Improvisação).

[5] Site do espetáculo Improvável. http://www.improvavel.com.br/

[6] Harold: Formato desenvolvido pelo ator estadunidense Del Close e sua companhia ImprovOlimpic de Chicago. Trata-se de “um espetáculo onde acontecem três cenas de maneira independente; elas interrompem-se sempre antes de se resolver, para logo se retomar em outras cenas ou em algum monólogo que realiza um dos improvisadores no meio” (32) O objetivo do Harold é estabelecer no final da sessão, o maio número de conexões entre os diversos acontecimentos que se deram nas cenas e nos jogos (32). (Caleti, 2009)


BIBLIOGRAFIA
- Bakhtin, M. (2088). Problemas da poética de Dostoievski. Rio de Janeiro: Forense Universitaria.
- Caleti, G. (2009). Impro Argentina, Apuntes e historia de la improvisación teatral. Buenos Aires: Ediciones de la Cooperativa Chilavert.
- Canadá, L. N. (1987). Rompan el Hielo, Guía para la organización de una liga de Improvisación. Ottawa, Ontario, Canadá: Théâtre Action y la LNI.
- De Lima e Munis, M. (27 de Mayo de 2007). www.textosdematch.blogspot.com. Recuperado el 24 de Noviembre de 2010, dehttp://textosdematch.blogspot.com/2007/05/la-improvisacin-como-espectcul...
- Johnstone, K. (1990). Impro, Improvisación y el Teatro. Santiago de Chile: Cuatro Vientos.
- Spolin, V. (2010). Improvisação para o Teatro (Traducción brasilera). São Paulo: Perspectiva S.A.
- Totino, F. (4 de Abril de 2011). Entrevista de investigación. (G. Miranda, Entrevistador)
Vío, K. (1996). Explorando el Match de Improvisación. Ciudad Real, España: Ñaque Editora.
PASSAGEIROS (Teatro de Improvisação. FIMPRO 2013)

miércoles, 27 de marzo de 2013

DRAMATURGIA VIVA


Cuando me invitaron a escribir este artículo pensé mucho en mi ciudad, y estoy hablando de Yarumal, porque fue ahí donde formé el corazón y preparé mi cuerpo para lo que se vino después, para convertirme en un actor y ahora “joven dramaturgo” antioqueño. Porque mientras viví en Medellín estos últimos dieciséis años comencé a ver a mi pueblo como la mayoría de capitalinos, como nos ven muchas veces en Bogotá a los de Medellín, como nos ven muchas veces aquí en Brasil a los colombianos, como nos ven casi siempre los norteamericanos y europeos a los latinos, como si no estuviéramos vivos. ¿Y qué podemos hacer para seguir vivos? ¿Para perdurar como Días, Viviescas, Freidel, Velásquez, el Arao, Martínez, Sierra, Romero, Vallejo y tantos otros que todavía brincan, juegan, lloran, sienten y viven en los teatros del mundo? La respuesta es obvia, hay que montarlos, representarlos, instalarlos, no dejarlos morir. A ellos y a los que apenas estamos naciendo, a los que llegamos al mundo hace mucho tiempo y empezamos a caminar hace pocos años con pasos firmes, equivocados pero firmes y dispuestos. No importa de dónde somos, si nacimos en Frontino, Manrique o en la clínica El Rosario de Medellín, no es eso lo que alimenta nuestra dramaturgia, es lo que tenemos por dentro. No seamos centralistas, tampoco nos sintamos periferia, la única manera de resaltar nuestro trabajo es haciéndolo por nosotros mismos, no hay que esperar a ser montados por un grupo importante de afuera, hay que montar desde adentro, revivir a nuestros muertos y darle respiración a nuestros vivos. Llevemos a escena nuestras obras, cuando nos reunamos a analizar textos, comencemos por los locales, por la gente que nos rodea, por los dramaturgos que hablan lo que nosotros queremos hablar. No seremos más importantes si sólo montamos a Shakespeare, seremos osados pero no diferentes. Y no estoy invitando a ese regionalismo descontrolado que nos reconoce como “paisas pujantes”, no es eso, estoy invitando es a la apropiación, a la credibilidad y materialización de lo que ya tenemos. No se trata de escribir o montar sólo obras costumbristas, comunitarias o políticas, que ya por el mero hecho de escribir nos volvemos tradición, somos política desde el mismo momento en que decidimos ser teatro. Eso dejémoslo a los otros, al que escribe la columna en el Colombiano, al público, a la mamá, que sean ellos los que le pongan nombre o género a lo que hacemos, nosotros simplemente escribamos, creemos y principalmente montemos nuestras obras para poder seguir vivos.


Ya tenemos un listado de dramaturgos vivos que nos pertenecen, inclusive algunos de los que ya están muertos siguen vivos. Porque la dramaturgia no está hecha para ser leída sino para ser interpretada. No tiene sentido hablar de dramaturgia cuando no se lleva a escena, cuando no es traicionada. Somos vulnerables a la negación, a la interpretación distante, a las múltiples visiones de lo que quisimos decir cuando nos sentamos a escribir, pero de eso se trata ser dramaturgo, nuestro trabajo es el esqueleto del cuerpo; la sangre, la carne y la piel sólo existen cuando los personajes sienten y viven en el espacio dramático, en el mundo ficcional que seguramente nada tendrá que ver con el que nos imaginamos esa noche a las tres de la mañana inspirados, con los dedos a mil y la mente sin poder conciliar el sueño.




Ser dramaturgo vivo es estar dispuesto a la transformación, a la adaptación, a la malinterpretación de lo que sentimos como propio; cuando una obra no es montada, cuando se queda en la biblioteca personal, impresa, sucia, leída por nosotros mismos o por el amigo actor que tanto lo quiere a uno, cuando se queda en la sala de ensayo o en la cabeza del colectivo, comienza a morirse, la protegemos tanto que ella se envejece, de desgasta y se muere. Y es que a veces tenemos que sentir dolor, miedo, angustia, para después disfrutar de la alegría, del éxito, del placer; así es el teatro, de matices profundos y sentimientos encontrados; pero qué bueno, porque mientras esto ocurra entonces estamos vivos, y no importa la metodología o la raíz. Yo por ejemplo me siento dramaturgo no por lo que he escrito, que eso apenas está comenzando a caminar, sino por lo que he creado e improvisado, porque existen otros tipos de dramaturgia, la Creación Colectiva nos dio esa herencia, aprovechémosla, estudiémosla, hagámosla. Ya no existe únicamente eso de autor, director y actor como tres entes dispuestos a mirar lo mismo de diferentes formas, ahora somos rizoma, aprovechemos lo que la época nos trajo y nos incita; misturémonos, tomemos material de aquí y de allá, escribamos sobre la escena, improvisemos, cojamos un texto e interpretémoslo como queramos, no importa si es representado o instalado, lo que importa es transformar esa dramaturgia en obra, en pieza, en cuadro, en performans, en imagen… en lo que nosotros queramos, pero hagamos algo con eso, no lo dejemos en la historia y en los libros, recordemos que el teatro sólo es teatro cuando es teatro y no cuando es idea, texto o intención.

Por favor montemos nuestras obras, mutilemos nuestros textos, adaptemos esas historias, hagámoslas nuestras, amémoslas, traicionémoslas, respetémoslas y maltratémoslas con mucho amor, sólo para sentir que estamos vivos, porque los dramaturgos somos egocéntricos,  hedonistas, anarquistas, egoístas, como usted, sólo que necesitamos ver en acción lo que creamos para poder respirar, de lo contrario de nada valió la pena trasnocharse. 

(Artículo para el Conversatorio sobre Dramaturgia organizado por el Consejo Municipal de Artes escénicas de Medellín, Subsector de Dramaturgia. Homenaje a la Dramaturgia de Medellín. Tres Dramaturgos - Tres Generaciones - Tres Lecturas Dramáticas. Marzo de 2013)



domingo, 24 de marzo de 2013

A ESTUDAR IMPRO CARALH...



A improvisação tinha sumido dos palcos há muitos anos, demorou vários séculos para voltar ser a cena e não parte do processo para a cena. Agora ela volta à moda, todos querem improvisar, assistir um vídeo de Impro no YouTube ou ir ao teatro e rir com as ocorrências dos improvisadores.

Muitos dos Impro-aficionados também anseiam aprender a fazer isso, que é tão divertido e às vezes parece fácil. Mas o que faz alguém querer estudar Impro?
-“Eu sou muito espontâneo” – pensam alguns. “Eu quero ser espontâneo” – pensam outros. Tem os que acham que aprender a improvisar é o mesmo que aprender a fazer Stand Up, ou por ser uma moda divertida, ou para ser famoso como aqueles caras da internet, os que apenas querem relaxar após um dia de trabalho. Claro que também, em menor escala, há aqueles que querem estudar Impro porque acham que é um bom caminho na sua formação de ator. Qualquer que seja o motivo, estas pessoas se encontrarão na sala de treinamento, dispostas a receber uma jornada de jogos, exercícios e cenas improvisadas, para no final se enfrentar à plateia, por que na verdade é só aí que a Impro cobra sentido, quando é feita frente ao público.

A Improvisação teatral não chega através das boas idéias, talento, desejo ou espontaneidade. Ela chega só através do estúdio, do treinamento. Já vimos pessoas que mudam radicalmente por causa da Impro, nós mesmos já mudamos com ela; as bases técnicas que ela propõe servem tanto para a cena como para a vida: a escuta, o trabalho em equipe, a aceitação, a capacidade de decidir rapidamente, de se divertir com o outro, de entender e propor para sair do cotidiano, são sem dúvida elementos que fazem a vida mais tranquila e vivível. Não pense nunca em fazer Impro sem treinar Impro. Tente improvisar sem copiar o que já viu, sem ter nada preparado, tente e vai ver que precisa de ferramentas, porque a Impro é feita de jogos, porém improvisar não é um jogo. Como diz Omar Argentino Galván “Somos improvisadores, mas não somos improvisados.” Temos que nos preparar, conhecer as bases técnicas para depois pirar e fazer o que queremos a partir delas, esses conhecimentos são acumulativos e inesgotáveis.

Spolin, Johnstone, Moreno, Lecoq, Leiton e muitos outros nos guiaram até os caminhos possíveis para a improvisação ser parte do nosso corpo de um jeito natural e gostoso, muitas companhias no mundo deram passos enormes e nos apresentaram outros caminhos improvisados que podemos percorrer. Mas não se esqueça, sempre vai precisar de estúdio e prática, porque a mente é como os músculos do corpo de um bailarino ou um esportista, ela precisa de alongamento diário, de preparação constante para ser cada vez más ágil, mais espontânea e criativa, quanto maior a carga horária de treinamento maior será o poder de criatividade do improvisador.

Assim como o corpo do improvisador, ele deve se preparar sempre, sair do seu estado natural para voltar a ser criança, abandonar os vícios, os medos e as censuras. Aprender a acreditar nas propostas dos outros, a emprestar os ossos, a pele, o rosto… a outras personagens para que habitem nele. A escrever com ele histórias nunca antes feitas e que nunca mais se repetirão.
A Impro não é uma moda, ela tem milhares de anos, só que agora está de novo no olhar do mundo, é por isto que temos que nos preparar sempre e conhecer a profundidade a técnica, especialmente se queremos virar improvisadores de verdade.

(Artigo escrito com junto com Allan Benati para o Guia do Portal Improvisando http://portalimprovisando.com/2013/03/16/a-tecnica-impro/)